A mão que faltou
Minha vida passa diante de mim
como um filme antigo,
sem gritos, sem cobranças,
apenas os fatos
que o tempo não conseguiu apagar.
Fui menina esperando um carinho
por engraxar os sapatos do meu irmão.
Mas, muitas vezes,
em vez de afeto,
recebi apenas exigências.
Cresci guardando silêncios,
carregando culpas que não eram minhas,
ajudando quem precisava
e seguindo em frente
mesmo quando eu também precisava de ajuda.
Estendi a mão tantas vezes:
para irmãos, para filhos,
para quem ficou sem casa,
para quem precisava recomeçar.
Fiz o que pude,
mesmo quando quase nada eu tinha.
Meus galhos ficaram tortos
como os de uma árvore enfrentando tempestades.
Ainda assim, continuei de pé.
Meus filhos encontraram em mim
um lugar para voltar.
Hoje, porém, estou cansada.
Meu cansaço tem nome: tristeza.
Não é vontade de morrer.
É vontade de descansar
desta luta que parece não terminar.
Gabriel ainda precisa de mim,
e eu sigo aqui,
um dia de cada vez,
tentando também me lembrar
de que eu mereço cuidado.
Talvez a vida não devolva
o bem que a gente espalha.
Talvez não exista esse retour de manivelle,
essa volta certa que recompensa
cada gesto de amor.
Estendi a mão tantas vezes.
Hoje sinto falta de uma mão estendida para mim.
E essa falta dói.
Mas a minha história não se resume
ao que não recebi.
Ela também é feita do que ofereci,
da força que encontrei
e da mulher que, apesar de tudo,
ainda está aqui.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 04/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.