Como os fatos que vivi
De repente, minha vida passa diante de mim como um filme. Sem dor, sem mágoa, sem cobrança. Apenas como fatos que aconteceram. São lembranças antigas, mas talvez sejam elas que deem sentido ao presente e, quem sabe, ajudem a mudar alguma coisa no futuro.
Ainda menina, eu engraxava os sapatos do meu irmão esperando receber algo em troca. Mas, se o serviço não estivesse perfeito, o que eu recebia era reclamação.
Quando comecei a namorar, eu tinha que conseguir cigarros para o meu outro irmão. Se não conseguisse, ele contaria ao meu pai.
Quando eu tinha doze anos, Rosana viu aquele homem em cima de mim. Proibiu-me de falar, dizendo que, se eu contasse, a família dele deixaria de dar coisas para ele: roupa, dinheiro ou comida.
Quando cresci, todos admiravam meu marido. Ele era visto como o melhor. Se eu apanhava ou sofria, a culpa acabava sendo minha, porque eu nunca dizia nada.
Quando me divorciei, tive minha primeira conta bancária. Meu primeiro cheque foi para ajudar uma irmã: emprestei dinheiro para Rosana comprar couro. Seria um investimento para nós duas. Ela gostou do que comprou, mas nunca me pagou. Eu fiquei com toda a dívida. Foram pessoas de fora da família que me ajudaram a sair daquele buraco de cheques sem fundos.
Quando a enchente chegou e levou o Jardim Eldorado, minha casa foi atingida, mas a do Leco ficou ainda pior. Fomos ao Guarezi e comprei todo o material necessário para ele reconstruir a casa. Ele nunca me pagou. Foi o Dimas quem pagou. Em troca, trabalhei para ele. Minha irmã achou que eu dormia com Dimas e fez com que eu fosse demitida.
Quando minha mãe morreu, fiquei sem ter onde morar. Foi Gilles e a família dele que deram abrigo a mim e aos meus filhos.
Durante o tempo em que estive na França, deixei minha conta bancária com Puka. Ela não trabalhava e precisava de uma fonte de renda. Quando voltei ao Brasil, deixei de ser a irmã chique e passei a ser aquela que tinha fracassado.
Durante a minha separação, Puka ficou do lado de Gilles. Falou sobre mim para ele, contando coisas minhas que poderiam me prejudicar.
Quando morava sozinha, meus filhos — Ana, Lipe e Gabriel — eram a minha família.
Eu estava enlouquecida de dor, mas todos preferiram se reunir e decidir que eu era uma “dromadaire suicida”. Quando o Mano se aproximou, achei que finalmente teria apoio. Mas ele queria dinheiro emprestado, dinheiro que nunca me devolveu.
E, durante todo esse tempo, nunca deixei faltar nada aos meus filhos. Trabalhei para Rosana, a mesma irmã que já me havia humilhado tantas vezes. Mas meus filhos precisavam comer. Todos exaltavam a bondade daquela irmã que “cuidava” da coitada da irmã louca.
Os outros nem lembravam que tinham uma irmã. Eu era a desequilibrada, a doida, a depressiva.
Foram anos assim. Puka me ajudou algumas vezes, escondida da companheira, mas nunca teve tempo para mim como irmã. Eu nunca pedi dinheiro. Queria família. Queria apoio.
Quando Ana me processou, foi um golpe final. Saber que minhas filhas foram até um juiz para tirar dinheiro de mim me feriu profundamente.
Como uma árvore, meus galhos ficaram tortos — mas não por escolha minha.
Meus filhos sempre puderam contar comigo. Se eu não tinha, dava um jeito. Lipe, mesmo adorando o pai, sempre voltou para a minha casa quando precisou. Francielly, mesmo tentando tantas vezes viver a própria vida, também voltou para minha casa. Ana, quando não se sentiu aceita, foi a mim que pediu apoio.
Mesmo assim, o grande herói sempre foi aquele que nos roubou, nos feriu e destruiu tanta coisa. No fim, ele acumulou dinheiro e ficou com a imagem de boa pessoa.
Hoje, estou cansada. Sorrio para não dar a essa gente o gosto de ver que me quebrou. Gabriel ainda precisa de mim.
Olho em volta e sinto que não tenho ninguém a quem pedir socorro. Não tenho dinheiro, não tenho forças e ainda sou vista como aquela que vive chapada.
Mas meu cansaço é tristeza, não vontade de morrer. Gabriel precisa de mim, e eu continuo aqui por ele — e também por mim, mesmo que ainda esteja tentando encontrar forças.
Talvez a lição de tudo isso seja que não existe um retour de manivelle na vida: nem sempre aquilo que fazemos pelos outros volta para nós. Estendi a mão tantas vezes. Ajudei, acolhi e fiz o que pude. E hoje, quando sou eu quem precisa, sinto que não há uma mão estendida para mim.
Isso dói. Mas a falta de apoio não apaga tudo o que fiz, nem diminui o valor da pessoa que fui e continuo sendo. Estou cansada e triste — e tenho o direito de estar assim.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 04/10/2026