Coletânea de emoções
Tudo que escrevo, é só o que sou
Textos

Como um peixe fora d’água

Desde muito jovem, sempre me senti diferente — como um peixe fora d’água.

Nas minhas lembranças de infância, sempre que sentia medo, escondia-me embaixo das cobertas ou até mesmo debaixo da cama. Discussões, brigas e gritos sempre me congelaram, paralisaram. Cócegas nunca me fizeram rir; faziam-me chorar.

Quando o sono não vinha à noite, eu me embalava sozinha, como fazemos com um bebê. Faço isso até hoje.

Na adolescência, descobri a escrita como uma maneira de aliviar minhas dores e meus medos. Escrevia sobre a vida e sobre a morte, imaginando a morte não como um desejo de partir, mas como uma forma de finalmente parar de sofrer.

Nas festas de Natal e de fim de ano em família, enquanto todos riam e se divertiam, eu chorava. Isolava-me e esperava que tudo terminasse logo. Meu aniversário sempre me deixou triste e insatisfeita, mesmo quando aparentemente tudo estava bem em minha vida.

Algumas comemorações que pareciam divertidas para os outros — raspar o cabelo de alguém que havia passado no vestibular ou jogar uma pessoa na piscina — sempre me pareceram uma agressão. Faziam-me chorar, mesmo quando não aconteciam comigo.

Shows? Nem pensar. A multidão e o barulho me cansavam e me deixavam atordoada. Isso não mudou.

No cinema, o som muito alto e o contraste da luz com a escuridão me deixam ansiosa. Adoro o vento e a chuva, porque sinto que me dão força. Mas não suporto o mar ou a piscina. A água no rosto me causa vertigem.

Muitas vezes me sinto medíocre, mesmo sabendo que tenho conhecimentos e capacidades. Talvez seja por isso que coleciono certificados: como se precisasse provar, aos outros e a mim mesma, que realmente aprendi alguma coisa.

Viver, para mim, é uma luta. Às vezes me pergunto quando essa luta terminará, embora saiba que não quero me matar. O que desejo é não precisar lutar tanto apenas para continuar vivendo.

Carrego dores e mágoas antigas. Minha memória permanece viva, trazendo acontecimentos da infância que ainda me fazem chorar, como se eu continuasse presa ao passado — mesmo tendo feito tudo o que pude para deixá-lo onde deveria estar.

Sentir-me exposta ou em evidência me paralisa. Se preciso ler diante de alguém, parece que já não consigo decifrar as palavras. Se preciso falar, gaguejo.

Choro com a mesma facilidade com que respiro. Talvez, em alguns momentos, seja até mais fácil chorar do que respirar.

Sempre disse que sou cognitivamente inteligente, mas emocionalmente burra. Não porque eu não tenha sentimentos, mas porque nunca consegui compreender por que sinto tudo de maneira tão intensa.

Hoje, aos 60 anos, percebo que algumas emoções ainda permanecem presas aos meus 18. É como se uma parte de mim tivesse parado naquele tempo, esperando a oportunidade de finalmente viver o que não conseguiu viver.

Mas agora tenho medo de que já não exista tempo suficiente.

Talvez, porém, não seja necessário recuperar todos os anos perdidos. Talvez eu precise apenas acolher aquela jovem que continua dentro de mim e dizer-lhe que, finalmente, alguém compreende a sua dor.

E esse alguém sou eu.

Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 20/09/2026
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