Quando o corpo se fecha para sobreviver
Hoje me vejo refletindo sobre o sexo e todas as implicações que ele teve em minha vida.
Da infância, não tenho lembranças claras. Ainda assim, quando esse assunto é abordado, sinto um desconforto profundo. Meu corpo reage com medo e dor, como se guardasse memórias que minha mente não consegue alcançar.
Aos doze anos, tenho a lembrança viva de cada detalhe de uma tentativa de estupro. Com ela, retornam também a dor do abandono, a falta de proteção, o descaso e uma tristeza difícil de explicar.
Aos quinze, a lembrança do abuso veio acompanhada da vergonha de ter sido acusada de provocar, quando, na verdade, fui acordada no meio da noite por uma agressão. Além da violência, precisei carregar uma culpa que nunca foi minha.
Dos dezoito aos vinte e três anos, minhas memórias ainda me confundem entre aquilo que era certo e aquilo que era errado. Eu acreditava que, dentro de um casamento, tudo deveria fazer parte de um aprendizado. Mas muitas experiências foram sentidas como punição, sujeira e vergonha.
Aos vinte e quatro anos, descobri o prazer. Foi uma descoberta intensa, embora vazia. Naquela época, oferecer prazer sem compromisso parecia ser a regra. Ainda assim, também vivi a dor e a vergonha de ser estuprada e de ver meu agressor sair ileso. Ele seguiu a vida; eu fiquei carregando as marcas da agressão.
Aos vinte e sete anos, conheci uma relação na qual sexo e amor caminhavam de mãos dadas. Mas eu já estava tão marcada que não conseguia me entregar nem desfrutar plenamente. Descobri que, por meio da intimidade e da confiança, podemos viver fantasias e tentar exorcizar alguns fantasmas. Porém, nem sempre o amor do outro consegue alcançar as feridas que escondemos dentro de nós.
Aos quarenta, percebi que o sexo também pode ser usado como forma de autopunição, quase como um autoflagelo. O corpo participa, mas a alma sofre.
Aos quarenta e seis, eu já não alimentava expectativas a esse respeito. Sabia que podia manipular uma situação oferecendo prazer, sem necessariamente permitir que alguém cuidasse do meu prazer ou verdadeiramente me alcançasse.
Hoje, aos sessenta anos, ainda posso sentir vontade de contato, mas desejo algo diferente: carinho, presença, delicadeza e segurança. Não procuro criatividade, desempenho ou a obrigação de corresponder às expectativas de alguém. Se eu puder escolher, talvez prefira não ter relações sexuais.
Com a maturidade, compreendi que a sexualidade não está separada de nossa história emocional, de nossa energia e da maneira como habitamos o próprio corpo. Dentro da minha espiritualidade, entendo também que o equilíbrio dos chakras pode estar relacionado à libertação de traumas e bloqueios. Mas sei que nenhuma cura acontece por imposição. Meu corpo precisa ser escutado e respeitado.
Infelizmente, ainda vivo dores do passado. Sinto que meu corpo não quer mais ser explorado para proporcionar prazer a alguém. Quando uma pessoa demonstra interesse pelo meu corpo, muitas vezes eu me sinto ofendida. Inconscientemente, eu me fecho, como se aquele interesse fosse novamente uma ameaça.
Durante muito tempo, acreditei que, sem sexo, não seria possível manter um relacionamento. Esse impasse me fez escolher a solidão. Mas talvez eu não precise decidir entre entregar meu corpo e permanecer sozinha.
Talvez exista outra possibilidade: encontrar alguém capaz de respeitar meus limites, compreender meu tempo e reconhecer que intimidade não se resume ao ato sexual. Ela também pode existir em um abraço seguro, numa conversa profunda, em mãos que se encontram sem exigências, na companhia silenciosa e no carinho que não cobra nada em troca.
Hoje quero aprender que meu corpo não é uma dívida, uma moeda de troca nem um território disponível para exploração. Meu corpo é minha casa.
E somente eu posso decidir quem entra, até onde entra e de que maneira será recebido.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 19/09/2026