Coletânea de emoções
Tudo que escrevo, é só o que sou
Textos
60 anos batendo à porta:Erros e Recomeços

Seria muito bom se, ao nascermos, recebêssemos um manual de instruções para cada ano da nossa vida.
Embora, pensando bem, como bons seres humanos que somos, provavelmente não o leríamos. Faríamos tudo do nosso jeito e, quem sabe, até completamente diferente do que estivesse escrito.
Portanto, ainda bem que esse manual não existe.
Assim, podemos errar e acertar sem carregar o pensamento: “Se eu tivesse lido as instruções, talvez tudo tivesse sido diferente.”
Sempre acreditei que, na maioria das vezes, não erramos com a intenção de errar. Erramos porque acreditamos estar fazendo o certo. Pelo menos naquele momento, com a maturidade, os sentimentos e o entendimento que temos, acreditamos.
Há muitas coisas na minha vida que hoje eu faria diferente.
Mas é fácil dizer isso agora.
A mulher que sou hoje conhece caminhos que a mulher que fui ainda não conhecia. Hoje tenho respostas para perguntas que, naquela época, eu nem sabia que precisava fazer.
Por exemplo, jamais aceitaria me casar sem amor apenas para cumprir um propósito familiar. Mas, se eu não tivesse feito aquela escolha, minha história teria seguido outro caminho. E talvez eu não tivesse os filhos que amo mais do que tudo nesta vida.
Quando meu segundo marido me disse que estava apaixonado por outra pessoa, talvez hoje eu não o deixasse partir sem antes lutar pelo nosso amor. Mas, naquele momento, lutar para que ele ficasse também significaria ir contra algo em que sempre acreditei: o livre-arbítrio.
Porque, para mim, o amor precisa ser livre.
Precisa ser espontâneo.
Ninguém deveria permanecer ao lado de alguém por obrigação, culpa ou medo de partir.
E assim foram muitos dos anos da minha vida.
A cada vez que recomecei uma nova fase, um novo relacionamento, um novo trabalho, uma nova história, entrei acreditando que, daquela vez, seria para sempre.
Que seria o meu tão esperado “felizes para sempre”.
Mas, com o tempo, compreendi que talvez o “para sempre” não exista da maneira como imaginamos.
Nem mesmo nos contos de fadas sabemos o que acontece depois da última página.
O príncipe e a princesa se casaram.
E depois?
Quais desafios enfrentaram?
Quantas vezes discordaram?
Quantas lágrimas derramaram?
Quantas vezes precisaram se perdoar, se reinventar ou começar novamente?
Talvez o verdadeiro “felizes para sempre” não seja uma vida sem problemas. Talvez seja apenas a capacidade de encontrar novos motivos para continuar, mesmo depois que aquilo que imaginávamos eterno chega ao fim.
Por isso, olhando para minha história, posso dizer:
Errei muito.
Acertei muito.
E recomecei muitas vezes.
Algumas escolhas eu faria diferente.
Outras, talvez, eu fizesse exatamente da mesma maneira.
Porque mudar um erro do passado também poderia significar apagar algumas das coisas mais preciosas que nasceram como consequência dele.
E há caminhos que, apesar das dores, me trouxeram até aqui.
Aos sessenta anos, começo a compreender que recomeçar não significa necessariamente que aquilo que veio antes tenha sido um fracasso.
Às vezes, uma história simplesmente cumpriu o seu tempo.
Um amor cumpriu o seu papel.
Um trabalho ensinou o que precisava ensinar.
Uma fase terminou porque já não cabíamos mais dentro dela.
Talvez eu ainda erre muitas vezes.
Talvez ainda tenha muitos recomeços pela frente.
E tudo bem.
Porque também aprendi que podemos viver situações semelhantes em momentos diferentes da vida e obter resultados completamente diferentes.
Nós mudamos.
O tempo muda.
As pessoas mudam.
E a mulher que chega hoje aos sessenta anos não é mais aquela menina que um dia começou essa caminhada.
Carrego todas as mulheres que fui.
A que errou.
A que acertou.
A que amou.
A que deixou partir.
A que caiu.
A que acreditou que seria para sempre.
E, principalmente, a que, cada vez que a vida mudou os planos, encontrou dentro de si coragem para escrever uma nova página.
Se existe um manual para viver, talvez ele seja escrito assim:
Uma página de cada vez.
Um erro de cada vez.
Um acerto de cada vez.
E quantos recomeços forem necessários.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 19/07/2026
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