60 anos batendo a porta : Meus Amores
Ainda na escola primária, eu era baliza da banda da escola. Havia um garoto que tocava bumbo e, todos os sábados, nos encontrávamos nos ensaios. Ele sempre me trazia uma laranja.
Pode parecer um gesto pequeno, quase insignificante, mas, para aquela menina que eu era, receber aquela laranja me fazia sentir especial.
Paulo Roberto foi meu primeiro amor.
Um amor infantil, puro, sem malícia, feito de olhares tímidos, ensaios de sábado e uma simples laranja que, para mim, carregava um mundo inteiro de significados.
Aos 12 anos, meu coração se encantou novamente.
Dessa vez, por um jovem nove anos mais velho do que eu. Mida era simples e nem olhava em minha direção. Afinal, eu ainda era uma criança. Mas isso não impedia meu coração de sonhar.
Todos os dias, no final da tarde, eu ficava na janela esperando que ele passasse.
O que me encantava nele?
Sua alegria. Seu jeito. Seu olhar.
Talvez tenha sido ali que comecei a construir, dentro de mim, a imagem do meu príncipe encantado.
Aos 14 anos, dei meu primeiro beijo.
Não posso dizer que gostei. Mas, quando fechei os olhos, por alguns instantes me senti como a princesa dos contos de fadas que finalmente havia encontrado seu príncipe.
Meus pais, dentro de suas razões, não permitiram aquele namoro.
E a vida seguiu.
Aos 18 anos, eu me preparava para casar com alguém que tinha a aprovação da minha família. Não era exatamente o grande amor dos meus sonhos, mas, naquele momento, acreditei que aquela era a escolha certa.
Precisei desistir de Mida, o príncipe que durante tantos anos habitara meus sonhos, e seguir em frente.
Convenci a mim mesma de que aquela era a melhor solução.
Aos 23 anos, depois de um casamento turbulento e abusivo e de ter dado à luz três crianças, saí de casa fugindo da vida que eu levava.
Foi quando compreendi que existia um amor muito maior do que qualquer paixão que eu já tivesse conhecido.
O amor de mãe.
Por meus filhos encontrei uma coragem que nem sabia que possuía.
Por eles, fui embora.
Mesmo sabendo que as consequências seriam dolorosas, escolhi enfrentar o desconhecido.
Porque, às vezes, amar também significa ter coragem de partir.
Aos 24 anos, conheci um homem sedutor. Com ele descobri uma mulher que até então eu desconhecia em mim.
Uma mulher forte. Desejada. Viva.
Foi um amor carnal, intenso, mas nem por isso menos importante.
Cada amor tem sua linguagem.
E aquele me ensinou a reconhecer meu corpo, minha força e minha feminilidade.
Aos 27 anos, eu ainda carregava muitas inseguranças e as marcas das escolhas que havia feito.
Foi então que conheci aquele que, por muito tempo, seria meu verdadeiro príncipe encantado.
Ele não chegou montado em um cavalo branco, vestindo uma capa vermelha.
Chegou em um Fiat vermelho.
E trouxe consigo poesias capazes de encantar meu coração.
Com ele vivi uma história tão bonita que talvez nem os contos de fadas tivessem ousado escrever.
Com ele conheci a França.
Com ele tive meu quarto filho.
Com ele descobri que, algumas vezes, a vida parece nos recompensar por todos os desafios enfrentados, principalmente quando continuamos acreditando e nos recusamos a desistir.
Mas, aos 40 anos, foi também com essa história que conheci uma das maiores dores que alguém pode sentir: a dor de perder um amor.
Descobri que existe uma espécie de morte que acontece ainda em vida.
E que, assim como nos contos, às vezes o mal atravessa a história, muda o rumo dos acontecimentos e deixa marcas que o tempo demora a apagar.
Aos 48 anos, eu ainda estava machucada.
Tinha medo de abrir novamente meu coração.
Foi quando conheci alguém que me emocionava de uma maneira inexplicável. Bastava encontrar seus olhos para que os meus se enchessem de lágrimas.
Eu sabia que havia algo diferente ali.
E logo descobri que aquela não seria uma história simples.
Com ele aprendi o que, para mim, significava amar incondicionalmente.
Aceitei situações que contrariavam muitas das coisas em que eu acreditava. Tentei compreender, acolher, fazer feliz.
Durante muito tempo, tentei ser a "princesa encantada" de alguém.
Esse amor me fez chorar.
Mas também me manteve viva, sonhando, acreditando, sentindo.
Até que, aos 56 anos, fiz uma das descobertas mais importantes da minha vida:
antes de amar alguém, eu precisava aprender a me amar.
E então voltei para a França.
Talvez, dessa vez, não estivesse fugindo de uma vida.
Talvez estivesse voltando para mim.
Hoje, quando os 60 anos batem à minha porta, olho para trás e percebo que, entre o meu sonho de menina de viver um amor mágico e as escolhas da mulher que me tornei, conheci muitas versões do amor.
Conheci o amor inocente de uma laranja entregue aos sábados.
O amor sonhado da menina que esperava seu príncipe passar diante da janela.
O amor que não pôde ser vivido.
O amor escolhido pela razão.
O amor que machucou.
O amor que me deu coragem para fugir.
O amor carnal.
O amor que chegou em um Fiat vermelho carregando poesias.
O amor de mãe, maior que todos os medos.
O amor que parecia um conto de fadas.
O amor perdido.
O amor incondicional.
E, finalmente, o amor por mim mesma.
Nenhum deles passou pela minha vida em vão.
Cada um deixou uma marca, uma lembrança, uma cicatriz ou um aprendizado.
Todos foram peças do grande quebra-cabeça da mulher que sou hoje.
Mas, quando olho para esse quebra-cabeça quase completo, percebo que ainda existe um pequeno espaço vazio.
Uma peça que a vida ainda não colocou em minhas mãos:
o amor na maturidade.
Esse amor eu ainda não conheci.
Não sei se chegará em um cavalo branco, em um Fiat vermelho ou simplesmente caminhando, sem fazer barulho.
Talvez não traga promessas de contos de fadas.
Talvez não precise me salvar de nada, porque, aos 60 anos, aprendi a salvar a mim mesma.
Quem sabe ele chegue apenas para caminhar ao meu lado.
Sem príncipes.
Sem princesas.
Sem a obrigação de viver felizes para sempre.
Apenas duas pessoas que já viveram o suficiente para compreender que o amor verdadeiro talvez seja simplesmente isso:
encontrar alguém com quem ainda valha a pena escrever os próximos capítulos.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 19/07/2026
Alterado em 19/07/2026