Coletânea de emoções
Tudo que escrevo, é só o que sou
Textos
60 anos batendo a porta : Minha Fé
Cresci em uma família onde diferentes crenças, religiões e doutrinas conviviam, cada uma à sua maneira.
Meu avô materno era kardecista. Segundo minha mãe contava, ele morreu acreditando que alguém havia lhe enviado um "trabalho espiritual". Mesmo sabendo disso, recusou-se a fazer qualquer coisa para se defender, pois sua fé lhe dizia que deveria confiar na justiça divina.
Minha avó paterna guardava seus mistérios.
Na casa dela havia um quarto onde as crianças eram proibidas de entrar.
Mas proibir uma criança curiosa de entrar em algum lugar é quase como entregar-lhe um convite.
Um dia fui espiar.
Encontrei uma sala diferente de tudo que conhecia. Havia muitas imagens, cortinas vermelhas, velas e objetos que eu não compreendia.
Durante muito tempo aquela imagem permaneceu guardada em minha memória. Somente na idade adulta descobri que minha avó era praticante do candomblé.
Eu, por minha vez, fui batizada na Igreja Católica. Desde menina frequentava missas e participava de atividades ligadas à igreja.
Mas, dentro de casa, a espiritualidade se manifestava de outras formas.
Presenciei sessões de incorporação e experiências que, naquela época, eu não conseguia compreender. Minha mãe seguia a Umbanda e meu pai, o Candomblé.
Eu tinha medo.
Muito medo.
Talvez porque ninguém tivesse me ensinado ainda que aquilo que desconhecemos pode nos assustar antes que tenhamos a oportunidade de compreender.
Na adolescência, algo começou a acontecer comigo.
Quando me olhava no espelho, comecei a enxergar a imagem de uma mulher refletida junto à minha.
Aquilo me perturbava profundamente.
Eu não sabia quem era.
Não sabia por que aparecia.
E, principalmente, não sabia o que fazer com aquela experiência.
Com medo e buscando proteção, aproximei-me da igreja evangélica.
Eu me "converti".
Naquele momento, acreditava que aquela fé poderia me proteger de tudo aquilo que eu não conseguia compreender.
Mas havia algo que me incomodava profundamente.
Quando ouvia palavras de julgamento sobre as crenças de meus pais, meu coração se revoltava.
Eu poderia escolher não seguir o caminho deles.
Poderia não compreender suas crenças.
Poderia até sentir medo delas.
Mas eram meus pais.
E eu queria que suas escolhas e sua fé fossem respeitadas.
Talvez por questionar demais, talvez por não conseguir aceitar algumas ideias sem refletir sobre elas, fui convidada a me afastar da igreja evangélica.
Disseram que eu não me encaixava.
E talvez realmente não me encaixasse.
A mulher do espelho, porém, continuava ali.
Cada vez mais presente.
Minhas noites começaram a ser povoadas por sonhos estranhos. Sonhos tão intensos que, algumas vezes, pareciam mais reais do que a própria realidade.
Eu precisava encontrar respostas.
Foi então que decidi fazer algo diferente.
Em vez de fugir do que me assustava, comecei a tentar compreender.
Passei a estudar o espiritismo e a espiritualidade.
E, no meio desses estudos, descobri aquilo que passei a compreender como minha mediunidade — e, junto com ela, toda a responsabilidade que essa descoberta representava para mim.
Bati à porta de diferentes instituições e caminhos espirituais.
Passei pela Umbanda.
Pelo Candomblé.
Pelo Espiritismo Kardecista.
E por outros espaços onde busquei respostas.
Cada um deles me ensinou alguma coisa.
Cada caminho me ajudou a compreender um pouco mais sobre aquilo que eu vivenciava.
Mas, curiosamente, em diferentes momentos, ouvi que aquele não era exatamente o meu lugar.
Talvez porque meu lugar não estivesse dentro de uma única religião.
Talvez meu caminho fosse justamente caminhar entre diferentes saberes, recolhendo de cada um aquilo que conversava com meu coração.
Ao longo dessa trajetória, descobri a leitura das cartas.
Aprendi a observar meus sonhos.
Vivenciei experiências de incorporação involuntária.
Conheci a meditação.
Passei a acreditar na comunicação com aquilo que compreendo como espíritos de luz.
Descobri a energia das cores, a força das plantas e diferentes formas de compreender o equilíbrio entre corpo, mente e espírito.
E estudei.
Estudei porque precisava compreender.
Precisava transformar o medo em conhecimento.
Precisava encontrar uma maneira de conviver em paz com aquilo que, durante tantos anos, me assustou.
Foi nesse caminho que me tornei terapeuta holística.
Mas, acima de qualquer técnica ou conhecimento, aprendi algo ainda mais importante:
aprendi a aceitar.
Aprendi a respeitar.
Aprendi que minha fé não precisava ter um único nome.
Passei a acreditar em uma força maior.
Deus.
Não um Deus pertencente a uma única religião, doutrina ou templo.
Mas Deus como um todo.
Um Deus que, para mim, se manifesta através do amor, do perdão, da caridade, da empatia e da solidariedade.
Hoje, quando os 60 anos batem à minha porta, percebo que minha espiritualidade também cresceu comigo.
Já não tenho a necessidade de encontrar um nome para tudo aquilo em que acredito.
Creio, acima de tudo, no poder do amor.
Creio em minhas entidades.
Creio nos espíritos de luz, que considero nossos irmãos de caminhada.
Creio na sabedoria das plantas e em seu poder de contribuir para nossa cura e nosso equilíbrio.
Creio nas cores, em sua energia e em sua capacidade de transformar ambientes, emoções e sentimentos.
Creio nos sonhos e nos esclarecimentos que, para mim, eles podem trazer sobre esta e outras vidas.
Creio no ser humano, imperfeito, contraditório, mas em constante possibilidade de evolução.
Creio que a vida é um presente.
Uma grande oportunidade de aprender, ensinar, cair, levantar, perdoar e recomeçar.
Por isso, se alguém me perguntar hoje qual é a minha religião, talvez eu não saiba responder com uma única palavra.
Minha fé não tem nome.
Não cabe inteiramente dentro de uma igreja, de um terreiro, de um centro, de um templo ou de qualquer doutrina previamente estabelecida.
Minha fé foi construída com pedaços de todos os caminhos por onde passei.
Com as lembranças dos meus avós.
Com a fé dos meus pais.
Com as missas da minha infância.
Com os medos da adolescência.
Com a mulher que eu via no espelho.
Com meus sonhos.
Com minhas buscas.
Com minhas perguntas.
E até com os lugares onde descobri que não era o meu lugar.
Hoje compreendo que minha fé mora em mim.
Ela se alimenta de cada coração que consigo tocar.
De cada mão que consigo estender.
De cada lágrima que ajudo a secar.
De cada sorriso que consigo despertar.
E, depois de tantos caminhos percorridos, talvez essa seja a definição mais verdadeira daquilo em que acredito:
minha religião é o amor.
E minha fé é continuar acreditando que, enquanto formos capazes de fazer o bem, acolher o outro e espalhar um pouco de luz pelo caminho, estaremos, cada um à sua maneira, mais perto de Deus.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 19/07/2026
Alterado em 19/07/2026
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