Coletânea de emoções
Tudo que escrevo, é só o que sou
Textos
60 anos e as muitas profissões que me construíram

Quando olho para minha trajetória profissional, tenho a sensação de folhear um livro escrito por muitas mãos — embora todas elas sejam minhas.
Foram tantos caminhos, tantas mudanças, tantos recomeços, que às vezes me pergunto como coube tanta coisa em uma única vida.
Talvez tudo tenha começado ainda na infância.
Estudei em colégio de freiras e sempre procurei ser uma aluna dedicada. Eu gostava de estudar. Gostava de aprender. Havia em mim uma curiosidade que me fazia querer descobrir coisas novas e experimentar tudo aquilo que a escola pudesse me oferecer.
Fui baliza da banda, treinei atletismo, participei de teatro de bonecos.
Sem perceber, enquanto aprendia sobre o mundo, começava também a descobrir um pouco sobre mim.
Aos 18 anos, me formei.
E então começou minha primeira grande história profissional.
Durante dez anos, fui professora primária.
Não queria ser apenas a professora que entrava em uma sala de aula, passava uma lição no quadro e esperava que as crianças aprendessem.
Eu queria despertar alguma coisa nelas.
Curiosidade.
Vontade.
Imaginação.
Queria fazer a diferença.
Trabalhava com sucata, inventava atividades, criava maneiras diferentes de ensinar. Cheguei até a ensinar francês quando eu mesma ainda mal sabia falar o idioma.
Hoje sorrio quando penso nisso.
Talvez eu tenha aprendido muito cedo uma das maiores lições da minha vida profissional:
não precisamos saber tudo para começar.
Às vezes, precisamos apenas ter coragem para aprender enquanto fazemos.
Depois, a vida foi me levando para outros lugares.
Fui telefonista.
Fui secretária em uma época em que os computadores ainda eram grandes caixas, com telas pretas e letras verdes. Um tempo em que a tecnologia começava lentamente a transformar a maneira de trabalhar — e eu aprendia a acompanhar essas mudanças.
Então atravessei o oceano.
Mudei para a França.
E, junto com o país, mudou também a minha realidade.
Fiz faxina.
Cozinhei.
Muitas vezes, preparava os pratos lendo as receitas, tentando entender como fazer aquilo que nunca havia feito antes.
Mais uma vez, aprendi fazendo.
Não existia trabalho pequeno.
Existia trabalho.
Existia a necessidade de seguir em frente.
Existia uma mulher tentando encontrar seu lugar em um país diferente, diante de uma língua, uma cultura e uma realidade que ainda precisava compreender.
Mas a vida também me proporcionou uma experiência que guardo com muito carinho: tive a oportunidade de trabalhar, em uma escola francesa, com jovens que não conseguiam se adaptar à sala de aula tradicional.
Talvez porque eu mesma sempre tenha acreditado que existem muitas maneiras de aprender.
E muitas maneiras de ensinar.
Depois, voltei ao Brasil.
E fiz algo que sempre esteve presente na minha história:
voltei a estudar.
Mais uma vez me sentei em uma sala de aula.
Dessa vez, não como professora.
Como aluna.
Formei-me em Gestão de Pessoas e continuei estudando. Fiz cursos, formações e especializações técnicas para complementar minha graduação.
Foram tantos conhecimentos adquiridos ao longo dos anos que costumo dizer que fiz uma espécie de pós-graduação construída não apenas dentro das instituições de ensino, mas também no cotidiano.
Porque existe aquilo que aprendemos nos livros.
E existe aquilo que somente a experiência consegue ensinar.
Trabalhei em restaurantes.
Trabalhei em casas noturnas.
Trabalhei em lojas de autopeças.
Passei por ambientes completamente diferentes e, em cada um deles, aprendi alguma coisa sobre administração, organização, liderança e gestão.
Mas, principalmente, aprendi sobre pessoas.
Aprendi que gerir pessoas não é apenas distribuir tarefas.
É observar.
É ouvir.
É compreender diferenças.
É descobrir talentos.
É entender que, por trás de cada função, existe um ser humano carregando uma história que nem sempre conhecemos.
Minha trajetória, porém, nunca foi uma linha reta.
Houve momentos em que as portas se fecharam.
E houve um momento em que me vi desempregada.
Foi então que comecei a recolher materiais recicláveis para conseguir algum dinheiro.
Talvez alguém pudesse olhar para aquele momento como uma queda.
Eu prefiro olhar como mais uma parte da minha formação.
Porque ali também aprendi.
Aprendi sobre humildade.
Sobre sobrevivência.
Sobre dignidade.
E, principalmente, sobre transformação.
Foi justamente essa experiência que me levou a participar de uma ONG onde trocávamos materiais recicláveis por alimentos destinados às pessoas menos favorecidas.
E aquilo que começou como uma necessidade pessoal acabou se transformando em uma experiência coletiva.
O que para alguns era lixo, para outros se transformava em alimento.
Talvez tenha sido ali que compreendi, de maneira ainda mais profunda, algo que acabaria se repetindo muitas vezes na minha história:
quase tudo pode ganhar um novo significado quando encontramos uma maneira diferente de olhar.
Depois, fui empreendedora.
Tive meu próprio restaurante.
Cozinhei para eventos.
Vendi lanches na praia.
Fiz o que precisava ser feito.
E nunca considerei nenhuma dessas experiências menor do que as outras.
Cada trabalho me ensinou alguma coisa.
Cada profissão acrescentou uma nova habilidade.
Cada dificuldade me obrigou a descobrir uma solução.
Trabalhei muito.
Aprendi muito.
E me reinventei muitas vezes.
Então chegou a pandemia.
De repente, o mundo parou.
Portas se fecharam.
Projetos foram interrompidos.
O futuro se tornou uma grande interrogação.
E eu fiz aquilo que, sem perceber, havia passado a vida inteira aprendendo a fazer:
comecei novamente.
Voltei a estudar.
E foi nesse período que um novo caminho surgiu diante de mim.
Os livros.
Comecei a trabalhar com edição.
E descobri um universo que reunia muitas coisas que sempre fizeram parte de mim: as palavras, as histórias, as pessoas e a possibilidade de transformar sonhos em algo concreto.
Um original chegava até minhas mãos.
Às vezes, carregado de insegurança.
Às vezes, escrito durante anos.
Às vezes, guardado durante uma vida inteira.
E, pouco a pouco, aquelas palavras se transformavam em páginas.
As páginas ganhavam forma.
As histórias ganhavam capas.
E os sonhos ganhavam livros.
Descobri que editar um livro é muito mais do que trabalhar com palavras.
É entrar, com cuidado, no sonho de outra pessoa.
É ajudar alguém a dizer:
“Minha história existe.”
Também percorri o caminho das terapias.
Ouvi pessoas.
Acompanhei histórias.
Vi gente chegar até mim com lágrimas nos olhos e sair carregando novas perguntas, novas possibilidades ou simplesmente a sensação de ter sido ouvida.
Mais uma vez, percebi que todas as minhas experiências profissionais pareciam ter alguma coisa em comum.
Pessoas.
No início, eram crianças em uma sala de aula.
Depois, jovens que não se adaptavam à escola tradicional.
Foram colegas de trabalho.
Funcionários.
Clientes.
Pessoas em situação de vulnerabilidade.
Autores com seus manuscritos.
Pessoas buscando acolhimento através das terapias.
Talvez minha trajetória profissional nunca tenha sido apenas sobre profissões.
Talvez tenha sido sempre sobre encontros.
Hoje, às vésperas dos meus sessenta anos, vivo novamente na França.
Continuo editando livros.
Viajo para participar de eventos.
Conheço autores e histórias.
Cruzo cidades e fronteiras levando comigo projetos que um dia existiram apenas na minha imaginação.
E agora começo mais um capítulo profissional.
A criação de uma associação voltada para auxiliar e orientar pessoas.
Quando penso nisso, percebo que talvez nada tenha acontecido por acaso.
A professora me ensinou a ensinar.
A telefonista me ensinou a comunicar.
A secretária me ensinou a organizar.
A faxina me ensinou que nenhum trabalho diminui quem o realiza.
A cozinha me ensinou a improvisar.
A gestão me ensinou a liderar.
O desemprego me ensinou a sobreviver.
A reciclagem me ensinou a transformar.
O trabalho social me ensinou a compartilhar.
O restaurante me ensinou a empreender.
As terapias me ensinaram a ouvir.
Os livros me ensinaram a eternizar histórias.
E a vida...
A vida me ensinou a começar novamente.
Quantas profissões tive?
Não sei.
Perdi a conta.
Mas sei que não sou apenas a profissional que sou hoje.
Sou um pouco de cada mulher que trabalhou antes de mim.
Carrego comigo a professora e a faxineira.
A secretária e a empreendedora.
A mulher que recolheu materiais recicláveis e aquela que hoje viaja para participar de eventos literários.
Nenhuma é maior do que a outra.
Nenhuma ficou para trás.
Todas me trouxeram até aqui.
Por isso, quando olho para minha trajetória profissional, não vejo apenas um currículo.
Vejo uma história.
Uma história feita de trabalho, estudo, coragem, improvisos, quedas, aprendizados e muitos recomeços.
E talvez o meu maior diploma não esteja pendurado em nenhuma parede.
Ele está em cada vez que a vida me disse:
“Você terá que começar de novo.”
E eu comecei.
Hoje, chegando aos sessenta, ainda não sei qual será minha próxima profissão, meu próximo projeto ou a próxima oportunidade que a vida colocará diante de mim.
Mas uma coisa eu sei:
se for preciso aprender, eu aprendo.
Se for preciso mudar, eu mudo.
Se for preciso recomeçar, eu recomeço.
Porque, depois de tantos anos, descobri que minha maior habilidade profissional nunca esteve escrita em nenhum currículo.
Minha maior habilidade sempre foi a capacidade de me reinventar.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 16/07/2026
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