Sessenta Anos Batendo à Porta
Sessenta anos batendo à porta.
Curioso... Quando eu era menina, acreditava que essa idade pertencia aos velhos. Aos que já tinham vivido tudo, realizado tudo e pouco lhes restava além das lembranças.
Hoje, estando diante dela, descubro que estava completamente enganada.
Sessenta não é o fim da estrada.
É o momento em que a pressa dá lugar à sabedoria. Quando deixamos de viver para agradar aos outros e passamos a viver em paz com quem somos. É a idade em que a liberdade deixa de ser um sonho e se transforma em escolha.
Ao olhar para trás, percebo que a menina que fui realizou quase todos os seus sonhos. Não exatamente da maneira que imaginava, porque a vida raramente respeita os nossos planos. Ainda assim, ela foi generosa comigo.
Eu amei.
Fui amada.
Sorri até a barriga doer e chorei até acreditar que não haveria mais lágrimas.
Passei noites em claro fazendo festa. Outras, abraçada à tristeza. Muitas delas embalando meus filhos no colo ou velando seus medos enquanto esperava o amanhecer.
Fui mãe cedo. Dei à vida quatro filhos, e cada um deles me ensinou uma forma diferente de amar. Mais tarde vieram os netos, lembrando-me que o coração sempre encontra espaço para amar ainda mais.
Escrevi livros contando minha história, minhas dores e minhas emoções. Também ajudei outras pessoas a transformarem suas vidas em páginas, porque compreendi que nenhuma existência é pequena quando é contada com verdade.
Errei.
E como errei...
Ainda carrego marcas de algumas escolhas. Mas hoje não me envergonho delas. Foram justamente esses tropeços que me ensinaram a caminhar com mais firmeza.
Já assisti a filmes românticos acreditando que o grande amor me esperava na próxima esquina. Também desliguei a televisão para não alimentar saudades que insistiam em permanecer.
Já sonhei com o futuro.
Já vivi presa ao passado.
Já fiz promessas para esquecer um amor e outras para encontrar um novo.
Busquei minhas origens.
Também tentei fugir delas.
Viajei por alguns países e fiz as viagens mais profundas sem sair do lugar.
Já me senti a mulher mais importante do mundo.
E também a mais invisível.
A vida me mostrou que somos, ao mesmo tempo, força e fragilidade. Luz e sombra. Coragem e medo.
Hoje compreendo que envelhecer não é perder a juventude.
É ganhar profundidade.
É aprender que algumas pessoas chegam para ficar, outras apenas para ensinar.
É descobrir que o perdão pesa menos que o ressentimento.
É aceitar que nem todos os sonhos se realizam, mas que, muitas vezes, a realidade consegue ser ainda mais bonita.
Por isso, quando os sessenta anos finalmente baterem à minha porta, não perguntarei por que chegaram tão depressa.
Vou apenas abrir a porta.
Preparar um café.
Convidá-los a entrar.
E agradecer por cada passo que me trouxe até aqui.
Porque, se a vida me permitiu chegar aos sessenta, é porque ainda acredita que há muitos capítulos esperando para serem escritos.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 14/07/2026
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