Colecionador de cacos
Ele ama como o mar em tempestade:
avança sobre a areia prometendo eternidade,
mas recua levando consigo tudo o que encontrou pela frente.
Em um instante, me chama de porto.
No outro, transforma outra mulher em farol.
E depois retorna como vento confuso, jurando que nunca saiu daqui.
Suas palavras são espelhos quebrados:
cada pessoa recebe apenas um reflexo diferente daquilo que ele precisa representar.
Para uma, oferece promessas.
Para outra, nega memórias.
E no centro do palco, permanece ele —
o eterno ator de sua própria tragédia inventada.
Seu narcisismo é um jardim de flores artificiais:
de longe parece belo, raro, encantador…
mas basta tocar para perceber que não existe perfume, nem raiz, nem vida verdadeira.
Ele atravessa corações como um incêndio elegante,
deixando cinzas enquanto insiste que apenas tentou aquecer alguém.
E quando as lágrimas aparecem,
não recolhe os cacos que espalhou.
Prefere construir um trono com eles
e sentar-se sobre a própria versão da história,
como um rei ferido por batalhas que ele mesmo provocou.
Há pessoas que pedem amor.
Ele pede admiração.
Porque o amor exige verdade, entrega e responsabilidade.
Já a admiração basta alimentar o vazio sem fundo que carrega no peito.
E assim segue:
colecionando afetos como quem coleciona espelhos,
não para enxergar o outro…
mas para nunca deixar de contemplar a si mesmo.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 11/05/2026
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