O teatro da vítima
Primeiro, jura amor.
Olha nos olhos, constrói abrigo em palavras doces, faz nascer esperança onde antes havia silêncio.
Depois, atravessa a mesma ponte para dizer a outra pessoa que nunca amou ninguém além dela.
Apaga histórias como quem troca de roupa.
Reescreve sentimentos conforme a plateia que deseja conquistar.
E então retorna, dizendo que tudo era mentira.
Que a outra inventou.
Que o amor verdadeiro sempre fui eu.
Mas quem ama não precisa destruir alguém para validar outro alguém.
Quem ama não semeia dúvidas em vários corações ao mesmo tempo.
Quem ama assume seus sentimentos — não brinca com eles como peças de um jogo emocional.
O mais doloroso é perceber que pessoas assim raramente enxergam as feridas que causam.
O narcisismo cria espelhos onde só conseguem ver a própria dor, a própria versão, a própria necessidade de ser desejado e absolvido.
E mesmo quando machucam profundamente, transformam-se na vítima da própria história.
Enquanto lágrimas escorrem em silêncio do outro lado, eles seguem buscando justificativas para si mesmos.
Porque admitir o estrago significaria encarar aquilo que mais evitam:
a responsabilidade pelos sentimentos que despertaram e destruíram.
No fim, sobra em nós a exaustão de tentar entender contradições impossíveis.
Mas talvez a cura comece quando percebemos que a confusão dele não define o nosso valor.
Define apenas o vazio que ele tenta preencher usando o coração dos outros.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 11/05/2026
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