O Peso do Que Chegou Tarde
Há uma ironia silenciosa em ver alguém finalmente fazer tudo aquilo que você sempre quis…
e, ainda assim, sentir o peito apertar.
Ele agora diz as palavras certas.
Tem gestos suaves, presença, cuidado.
Quase como um roteiro bem ensaiado —
daqueles que a gente pediu tanto,
que a gente implorou em forma de silêncio,
de espera, de paciência.
Mas algo dentro de mim não consegue simplesmente acolher.
Porque não é sobre o agora.
É sobre o antes.
É sobre saber que essas mesmas palavras,
esses mesmos olhares,
essa mesma versão “ideal”…
já foram oferecidos a outra pessoa
há tão pouco tempo.
E então o que era para ser leve, pesa.
Pesa porque eu queria acreditar sem esforço.
Queria receber sem precisar filtrar, comparar, lembrar.
Queria que o presente não viesse carregando rastros.
Mas vem.
E eu me vejo tentando controlar o incontrolável:
meus pensamentos, minhas reações,
essa vontade de confiar que briga com a memória que não esquece.
É um exercício exaustivo.
Um autocontrole que cobra caro do corpo.
Que transforma emoção em tensão,
e tensão em dor.
Tem dias em que sinto, sim,
como se estivesse segurando o mundo nos braços —
um mundo feito de dúvidas,
de pequenas verdades mal resolvidas,
de gestos bonitos que chegam… tarde demais para serem leves.
E talvez essa seja a maior contradição:
não é a falta que dói,
é o excesso fora de tempo.
Porque quando o cuidado não vem no momento em que a alma precisava,
ele deixa de ser abrigo…
e passa a ser lembrança do que faltou.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 02/05/2026
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