É você
Perdida entre o sonho e a realidade,
como quem atravessa um véu invisível
onde tudo que foi vivido ainda pulsa,
mas tudo que ainda não veio sussurra promessas indecisas.
Sou feita dessa fronteira: metade memória, metade desejo.
Carrego os bons momentos do passado
como um perfume que insiste em permanecer na pele,
mesmo depois de tantas chuvas,
tantas despedidas,
tantas noites tentando esquecer o que marcou demais.
Há lembranças que não se apagam —
se transformam em cicatriz luminosa,
em saudade que morde e acaricia ao mesmo tempo.
E enquanto tento resgatar o que fui,
me pergunto se ainda existe, em algum canto de mim,
a mulher que acreditava sem medo,
que amava sem medir,
que se entregava inteira como quem mergulha no mar
sem perguntar a profundidade.
Mas o medo…
ah, esse medo que nasce no silêncio das madrugadas.
O medo de não viver mais nada que levante a alma,
que desperte o coração com aquela batida urgente,
como se o mundo coubesse num único instante de verdade.
O tempo passa depressa demais,
e eu o vejo escapar pelos corredores da vida
como um amante que se despede devagar
mas não volta o rosto para trás.
E eu fico aqui, querendo mais tempo,
rogando por segundos extras
para amar melhor, para ser amada de forma inteira,
para não deixar a vida passar por mim sem me tocar.
Às vezes quase aceito migalhas.
Quase.
Quase me convenço de que um carinho pela metade
é melhor que a cama vazia,
que a mensagem fria é melhor que o silêncio,
que um corpo presente mas uma alma ausente
ainda é companhia.
Mas meu coração não aceita meia-luz;
ele quer claridade, tempestade, fogo.
Quer um amor que transborde, que desordene,
que me encontre mesmo quando me escondo,
que me veja além do que eu mostro.
E então fico sozinha —
não por falta de quem queira ficar,
mas por falta de quem saiba ficar.
E nessa solidão escolhida,
espero pelo amor que não chega aos pedaços,
mas inteiro, ardente, luminoso,
capaz de incendiar até as partes de mim
que já desistiam de sentir.
Entre amar e não acreditar,
vivo num fio de navalha:
metade esperança, metade desconfiança.
Mas quando fecho os olhos…
ah, quando fecho os olhos,
meu coração confessa sua verdade:
quer amar.
Quer acreditar.
Quer se perder e se encontrar
nos braços certos,
no abraço que não solta,
no destino que chama pelo nome.
E eu, apesar de tudo,
ainda espero —
não qualquer amor,
mas aquele que chega com alma,
aquele que me reconhece no escuro,
aquele que me olha por dentro
e diz sem dizer:
“é você.”
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 26/11/2025