Sabe recomeçar
Perdida entre o sonho e a realidade,
como quem caminha num corredor estreito
onde cada porta aberta revela uma lembrança,
e cada porta fechada esconde um futuro incerto.
Carrego ainda os bons momentos do passado
como quem segura fotografias que já desbotam,
mas que insistem em aquecer o peito
nos dias em que o presente parece frio demais.
E enquanto tento resgatar o que fui,
o que vivi, o que senti,
um medo silencioso se aproxima —
o medo de não viver mais nada que valha a pena,
de não sentir mais aquele arrepio de começo,
aquela euforia de pertencimento,
aquela certeza de que algo lindo estava por acontecer.
O tempo corre.
Corre depressa demais.
E eu me vejo tentando alcançá-lo,
com a sensação amarga
de que, a cada passo, ele escapa um pouco mais,
como areia fugindo entre os dedos.
E nessa pressa que não controlo,
me pego tentando aceitar migalhas,
pequenos gestos, pequenas presenças,
como se isso fosse suficiente
para calar a solidão que às vezes grita dentro de mim.
Mas, num outro canto da minha alma,
há uma voz que insiste:
“não te contentes com pouco,
não te encolhas no que não te abraça,
não te percas em quem não te encontra.”
E então fico sozinha —
não por falta de companhia,
mas por falta de inteireza.
E nessa solidão escolhida,
espero por algo único, inteiro, verdadeiro,
algo que não seja sombra nem resto,
mas presença plena.
Entre amar e não acreditar,
entre duvidar e desejar,
me movo como quem tateia o escuro
procurando uma luz que ainda não sabe se existe.
E no entanto…
há em mim essa vontade teimosa
de acreditar que ama,
de acreditar que é possível,
de acreditar que o coração,
mesmo cansado,
ainda sabe recomeçar.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 26/11/2025