Os disfarces da depressão
Às vezes, a depressão não chega com lágrimas,
Nem com gritos — Ela se instala em silêncio,
Como neblina que se deita sobre o peito
E cobre o sentido das coisas.
Alguns a enfrentam trabalhando sem parar,
Como quem tenta fugir de si mesmo,
Empilhando tarefas para não pensar,
Para não sentir o vazio que mora entre um gesto e outro.
Outros constroem muros invisíveis
E se exilam do mundo,
Esquecendo o som da voz humana,
O toque, o riso,
Até o próprio reflexo parece um estranho.
Há quem busque o perigo — Não por rebeldia,
Mas porque a dor já não dói o bastante.
Cometem atos impensados
Só para lembrar que ainda têm um corpo,
Que o sangue ainda corre.
E há aqueles que se deixam levar,
Como folhas secas num rio lento,
Ignorando o corpo que adoece,
Os sinais que o tempo desenha na pele,
Como se a morte fosse uma visita esperada
E a vida, apenas um ensaio inacabado.
A depressão é uma sombra que não some,
Um hóspede antigo que muda de forma,
Mas nunca vai embora.
Não tem cura — Apenas pausas, respiros,
Momentos em que o sol atravessa a janela
E faz parecer que o peso foi embora.
Às vezes, o coração se agarra a uma ilusão de amor,
Crê que o afeto de alguém pode preencher o abismo,
Curar o que o mundo feriu.
E quando alguém diz :"Você pode ser feliz sozinha”,
O desespero vem como uma onda - Porque o eco interior responde :
“Mas eu não sei.”
É aí que a consciência desperta :
Todos estamos indo na mesma direção,
E se o corpo se desmancha aos poucos,
Talvez seja mais fácil aceitar o fim
Como quem entrega o fardo à própria dor.
A depressão é o cansaço da alma
Que já chorou tudo o que podia,
E o silêncio que grita dentro de um sorriso,
E a tentativa de continuar respirando
Mesmo quando o ar se tornou pesado demais.
Ela se veste de força, de riso, de normalidade,
Anda entre as pessoas disfarçada de rotina,
Mas por dentro é um mar revolto,
Onde cada pensamento é uma onda tentando afogar a esperança.
E no fundo desse mar,
Há sempre um sopro de vida pedindo socorro — Um pedido mudo,
Um fio tênue de luz,
Como se a alma dissesse em silêncio :
“Não me deixem desaparecer.”
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 22/10/2025