Amores que Conheci
No amor de filha,
Dois mundos me habitaram :
A mãe que me criou,
Força e coragem que sustentaram meus dias,
E a mãe biológica,
Elo misterioso, genético,
Um afeto que existia
Sem que eu entendesse sua raiz.
No amor de irmã,
Quis ser guardiã,
Mas descobri que era protegida.
A pequena, corajosa,
Trazia no peito a mesma chama
Da mulher que chamávamos de mãe,
Enquanto eu me via frágil,
Mesmo sendo inteira.
No amor romântico,
A dor se fez mestra.
Na juventude, era ferida aberta ;
Na vida adulta, medo de perder,
Medo de não dar conta.
Fugi do confronto,
Do grito, da agressão.
Troquei amor por carência,
Idealizei príncipes que não existiam,
Aceitei o sofrer
Como se fosse prova de amar.
Até que um dia, cansada,
Abandonei o campo de batalha.
Não fui heroína,
Fui humana —
E fugi.
No amor de mãe,
Fui abrigo e prisão.
Escudo, bengala, porto seguro,
Mas também peso e exigência.
Amei demais,
Mas às vezes sem medida,
Esquecendo que o verdadeiro amor
Também liberta.
E o amor-próprio ?
Esse ficou na teoria :
Palavras em livros,
Ensinamentos a outros,
Mas nunca vivido em mim.
Um eco distante,
Um chamado insistente,
Um caminho ainda por construir.
Hoje compreendo :
Sou feita de todos esses amores,
Luzes e sombras,
Forças e fragilidades.
E se ainda não aprendi
A me amar por completo,
E porque o processo continua.
Porque não sou apenas os amores que vivi.
Sou também o amor que posso criar —
E ele começa em mim.
Cigana Ro
Enviado por Cigana Ro em 29/08/2025